quarta-feira, 12 de março de 2014

Instituição franciscana atende mais de 20 mil pessoas no Haiti

Considerado o país mais po­bre das Américas, o Haiti tem cerca de 80% das pessoas viven­do abaixo da linha de pobreza. A nação vive sob o flagelo da fome e das marcas do terremoto, ocorrido em 2010, que danificou 80% da sua estrutura, deixando mais de 300 mil mortos e 1,5 mi­lhões de desabrigados. Foi neste cenário de pobreza extrema que a Associação Lar São Francisco na Providência de Deus lançou o projeto Semeando o Futuro, no qual são atendidas crianças a partir dos dois anos até os 18 anos de idade. Mais de 20 mil pessoas já foram beneficiadas pelo proje­to, que existe desde 2011 no país.

Mais de nove toneladas de alimentos já foram enviadas ao Haiti partindo do Rio de Janeiro. As crianças e os jovens atendidos pelo projeto contam com vários tipos de cursos, além de recreação e refeição. Há ainda atendimento ambulato­rial, distribuição de medicamentos e acompanhamento de crianças que sofrem de desnutrição.
A Igreja Católica é uma das grandes mediadoras nesse mo­mento de reconstrução, de acor­do com o frei Gabriel Martins Alves, enfermeiro e responsável pelo Projeto Haiti no país. “O objetivo da missão é atingir as pessoas que vivem como se não existissem”, destacou.
O Projeto Haiti é mantido pela Associação Lar São Fran­cisco de Assis na Previdência de Deus, mantenedora do Hospital São Francisco na Providência de Deus, da Tijuca, e com a ajuda de colaboradores: pessoas anô­nimas, Cáritas brasileira, Cáritas Italiana, entre outras.
Confira entrevista exclusiva que frei Gabriel Martins Alves concedeu ao jornal “Testemunho de Fé”.

Testemunho de Fé (TF) – A instituição atende crianças ca­rentes? Como é o trabalho no país?
Frei Gabriel Martins Alves – A nossa Associação e Fraternidade Lar São Francisco de Assis na Previdência de Deus tem um projeto chamado Semeando o Futuro, no qual atendemos cerca de 700 crianças a partir dos dois anos até os 18 anos de idade. Temos no projeto aulas de violão, tambor, catequese, inglês, dança, teatro, reforço escolar, coral de adolescentes, recreação e refeição. Discutimos com eles temas como a paz, algo que se quer muito nesse país que vive em conflito, dentre outros temas de suma importância.

TF – Há também trabalhos de ambulatório para atender aos moradores do país?
Frei Gabriel – Temos atendi­mento ambulatorial de clínica geral, ginecologia e pediatria todos os dias, além da distribui­ção de medicamentos grátis para estas pessoas, que acampam na porta da nossa casa às três da manhã para aguardar o aten­dimento. Possuímos também um centro para as crianças que sofrem de desnutrição, onde são atendidas todos os dias por uma equipe multiprofissional. As crianças são medidas e pe­sadas regularmente, acompa­nhadas pelos agentes de saúde que fazem visitas em suas casas regularmente. Estas famílias recebem alimentos a cada 15 dias para ajudar as crianças a se desenvolverem, recebem vita­minas e orientações de higiene e são acompanhadas pela pediatra e por enfermeiras. Temos uma padaria industrial que foi doada pelos padres redentoristas da cidade de Aparecida, em São Paulo. Fazemos diariamente 2 mil pães, que vêm enriquecidos com a multimistura da Pastoral da Criança, sonho da nossa sau­dosa Zilda Arns.

TF – Quantas pessoas são beneficiadas pelo projeto? Des­de quando ele existe?
Frei Gabriel – Mais de 20 mil pessoas já foram beneficiadas pelo projeto, que existe desde 2011.

TF – Qual o objetivo do pro­jeto? Qual a avaliação que o senhor faz sobre o trabalho realizado?
Frei Gabriel – O objetivo da missão é atingir as pessoas que vi­vem como se não existissem, pois dar um comprimido com amor para dor não tem preço, e aliviar a dor e transmitir amor, dar ao fa­minto um pão e um copo de leite com amor não tem valor nenhum que pague. A dor da fome é triste demais e eu já presenciei muitas vezes o choro da criança que tem fome e o desespero da mãe com as mãos atadas sem poder fazer nada. Então, é mais que o nosso objetivo.

TF – Qual a avaliação que o senhor pode fazer acerca da atual situação do país nesse processo de reconstrução?
Frei Gabriel – O Haiti é con­siderado o país mais pobre das Américas. A miséria aqui as­susta, pois é algo que nos tira o fôlego, não existem empregos. A fome é gritante, as ruas ainda têm muito lixo, pois não existe uma coleta. Pouco foi feito aqui. Milhares de pessoas ainda vivem debaixo de tendas. A saúde é precária e o cólera mata milhares de pessoas. Não existe energia elétrica no país, a água é precária e as pessoas sofrem muito. O que falta é vontade política. O país passa por um momento delica­do, e a conferência episcopal hai­tiana conseguiu chamar para um diálogo os políticos e membros da sociedade civil, pois precisam organizar novas eleições para senadores e deputados. É algo delicado. Então, a Igreja Católica é quem está sendo a mediadora nesse exato momento.

TF – Foram enviadas mais de nove toneladas de alimentos para o Haiti em agosto. Foram feitas novas remessas?
Frei Gabriel – O coração do povo brasileiro não tem frontei­ras, especialmente o coração do povo carioca, pois chegou aqui nove toneladas de alimentos. O Rio de Janeiro é conhecido pelo Carnaval, mas tenho a mais absoluta certeza de que será conhecido também pela solidariedade para com o povo haitiano. Esta é a segunda vez que vem doações do Rio para cá. A primeira foi uma tonelada de leite, agora estamos aguardando novas doações que virão do Rio e do Estado de São Paulo.
TERESA FERNANDES

Fotos: Divulgação