terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Igreja tem papel decisivo na história do Rio

Os beneditinos fundaram seu convento no Rio em 1590
O Rio de Janeiro já se prepara para as co­memorações dos 450 anos de sua funda­ção, em março do próximo ano. Ao longo dos séculos, a Igreja Católica teve uma participação decisiva na história e na cultura da cidade. Principalmente nos primeiros tempos de Brasil Colô­nia e durante o período imperial, ordens religiosas tiveram estreita ligação com os acontecimentos históricos. Jesuítas, beneditinos, carmelitas e franciscanos foram os primeiros a se estabelecerem na cidade.
Havia uma ligação profunda entre Igreja e Estado, de acordo com o frei Sandro Roberto da Cos­ta, frade franciscano e professor de história da Igreja no Instituto Teológico Franciscano de Petró­polis. “Nesse período colonial existia uma ligação muito profun­da. Era quase uma simbiose entre Igreja e Estado através do sistema de padroado”, destacou. A Igreja tinha uma influência profunda. Todos os navios que saíam de Por­tugal contavam com religiosos.
A influência da Igreja também foi importante para a aproximação dos colonos e portugueses. “Não é possível compreender o desenvol­vimento da presença portuguesa no Brasil prescindindo do papel da Igreja. Ela esteve presente em todos os momentos importantes da colônia, seja através do aparato oficial, seja através da religiosida­de do povo”, destacou frei Sandro.
Um dos primeiros episódios históricos em que os religiosos estiveram presentes foi a ex­pulsão dos franceses do Rio de Janeiro, em 20 de janeiro de 1567. A ofensiva lusitana para expulsão dos invasores começou em 1565 e teve participação decisiva dos je­suítas, de acordo com frei Sandro. “Desde que os portugueses opta­ram por expulsar os franceses que estavam na Baía de Guanabara e tomar posse da terra, contaram com a colaboração decisiva e fundamental da Igreja através dos jesuítas”, destacou.
Outro importante fato da história do Rio de Janeiro foi o estabelecimento da primeira sede cardinalícia da América Latina, com o Cardeal Joaquim Arcover­de. “A cidade começa com a Igreja Católica. Não é possível dissociar a história do Rio de Janeiro da Igreja”, destacou Marcelo Calero, presidente do Comitê Rio450.
Atualmente, a Igreja também possui papel relevante na constru­ção da história da sociedade. De acordo com o doutor em história Marcelo Timotheo da Costa, a instituição tem um “papel fun­damental no debate público e político e na defesa de direitos humanos e da vida humana”.
Marcelo Timotheo destacou a importância também do jesuíta Papa Francisco, cuja mensagem tem chegado a todo o mundo. “O fenômeno religioso é social e não privado”, destacou. “Uma instituição religiosa não está fora do seu tempo e do seu espaço. Ela tem que ser entendida dentro do contexto da vida da sociedade onde ela está inserida”, comple­tou frei Sandro.
O protagonismo da Igreja também está ligado a aspectos de ordem social, de acordo com Marcelo Calero. O presidente lembrou o trabalho de Dom Helder Câmara, que reverberou no Concílio Vaticano II: “A Igreja tendo como opção preferencial os pobres”.

ORDENS RELIGIOSAS
Os jesuítas foram os primei­ros a se estabelecer no Rio de Janeiro. Os sacerdotes chegaram ao Brasil com o primeiro gover­nador-geral da colônia, Tomé de Sousa, desembarcando na cidade de Salvador em 1549. Logo depois foram deslocados para o Sul. Coube aos seus cuidados a pri­meira igreja da cidade, dedicada a São Sebastião e construída na praia entre o Pão de Açúcar e o morro Cara de Cão.
É aos jesuítas que historiado­res creditam a implantação de um sistema de educação formal no Brasil Colônia. Em 1570, já haviam aberto escolas de instru­ção elementar em Porto Seguro, Ilhéus, São Vicente, Espírito Santo e São Paulo de Piratininga, além dos colégios do Rio de Janei­ro, Pernambuco e na Bahia. Padre Manoel da Nóbrega e José de An­chieta são nomes importantes.
Já os franciscanos chegaram em 1592 ao Brasil e se instalaram em 1607 no Rio de Janeiro. Como as demais instituições, eles se dedicavam à assistência religiosa aos colonos, além de trabalhar nas missões. Havia trabalhos em cidades vizinhas como Nova Iguaçu, Magé, São João do Meriti, Cachoeiras de Macacu. Entre os episódios históricos, houve o tradicional ‘beija-mão’ depois da chegada da família real ao Brasil.
Ao se estabelecer no Rio, em 1808, Dom João VI passou a visi­tar o Convento de Santo Antônio todos os anos no Dia de São Fran­cisco para almoçar com os frades. O Dia do Fico também teve papel determinante dos franciscanos. Francisco de Santa Teresa de Je­sus Sampaio, o frei Sampaio, era amigo de Dom Pedro I, e escreveu o documento que foi assinado por várias autoridades.

BENEDITINOS E CARMELITAS SE ESTABELECERAM EM 1590
Além de serem presença orante na cidade, os beneditinos tinham influência econômica em virtude de suas fazendas de cana-de-açúcar. O mosteiro beneditino do Rio de Janeiro foi fundado em 1590 por monges vindos da Bahia, a pedido dos próprios habitantes da recém fundada cidade de São Sebastião.
Além disso, participaram de fatos históricos relevantes da cidade, como a guerra contra os franceses. De acordo com Dom José Palmeiro Mendes, abade emérito do mosteiro de São Bento e atual prior, o mosteiro estava em um ponto estratégico e possibilitou a defesa da cidade. Além disso, depois da chegada de Dom João VI, os monges deram abrigo a membros da corte e acabou servindo de quartel no reinado de Dom Pedro I.
“A Igreja está intimamente relacionada com a história da cidade. A presença da religião era muito forte. Os portugueses eram religiosos por excelência”, desta­cou Dom José. De acordo com ele, um dos nomes importantes da história do Rio foi Dom frei Antônio do Desterro, beneditino que foi bispo entre 1745 e 1773.
Os carmelitas estão no Rio de Janeiro em três ramos: frades, monjas e seculares. De acordo com o carmelita secular Elcio Deccache, há também outras congregações com o carisma car­melita que vivem outras formas de vida. “Essa riqueza de formas de viver o carisma se deve em muito à regra de Santo Alberto, e por isso está presente também entre os carmelitas da antiga observância”, ressaltou.
O Rio de Janeiro também foi o primeiro lugar do mundo a ter uma igreja dedicada a Santa Te­resinha. Frei Fábio Magno, frade da Ordem dos Carmelitas Des­calços, é o pároco do Convento e Paróquia Santa Teresinha, na Ti­juca. Ele lembrou que a Igreja foi inaugurada em 1927, apenas dois anos depois que a jovem santa foi canonizada pelo Papa Pio XI.

TERESA FERNANDES
teresafernandes@testemunhodefe.com.br

Fotos: Gustavo de Oliveira