sábado, 16 de novembro de 2013

CEBs: lugar de inclusão e de vivência do Evangelho


Na Arquidiocese do Rio, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) são acompanhadas por uma comissão formada pelo padre Niraldo Lopes de Carvalho, pelo diácono Carlos Henrique Azevedo e por André Luiz Barroso. A comissão se reúne periodicamente com os coordenadores das CEBs para estudo de temas, planejamento e debate de assuntos diversos de interesse da comunidade.
Padre Niraldo e André Luiz conversaram com o “Testemunho de Fé” e falaram sobre as CEBs na cidade do Rio de Janeiro.
Testemunho de Fé – Como está a caminhada das CEBs na Arquidiocese do Rio? Muitos acreditam que elas não existam mais...
Padre Niraldo Lopes – As CEBs se mantêm vivas, embora muitos digam que elas acabaram. Te­mos CEBs nos vicariatos Oeste, Suburbano, Leopoldina, Jacare­paguá, Urbano e Norte. As CEBs não são algo a mais na Igreja. Uma Comunidade Eclesial de Base é a Igreja na sua base, que vai trabalhando sobre muitos aspectos e temas. Os membros das CEBs estão envolvidos em muitas atividades e pastorais: de Favelas, do Trabalhador, da Criança e muitas outras. Estão, também, presentes em movi­mentos sociais e de direitos hu­manos. As CEBs estão presentes nas cidades e em regiões rurais. Por isso, no próximo Intereclesial vamos debater o tema: “Justiça e profecia no campo e na cidade”.
 TF - O que é o Trezinho?
Padre Niraldo – Realizado pela primeira vez na arquidiocese, é um mini-intereclesial. O Trezi­nho é um encontro que ocorre em âmbito de regional da CNBB, em preparação ao Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, que reúne representantes de todo o Brasil. Em todos os regionais da CNBB se faz um encontro regional com o tema do próximo Intereclesial, para favo­recer a reflexão do tema por todas as comunidades e a vivência do encontro e da comunhão. Este evento é carinhosamente chama­do no diminutivo. Por exemplo: tivemos em Porto Velho, no ano de 2009, o 12° Encontro Inte­reclesial, no qual participaram delegados eleitos nos regionais. E houve o encontro aberto às comunidades, que chamamos Dozinho. Agora o 13º Encontro dos Delegados será em Crato, no Ceará, em janeiro de 2014, e em todos os regionais está sendo realizado este ano o Trezinho.
 TF - Qual a importância do Intereclesial?
André Luiz Barroso – O Intere­clesial é um momento forte de encontro que é importante para conhecer a experiência do outro. É um evento que recebe, inclusi­ve, representantes de outros pa­íses, especialmente da América Latina. São realizados de quatro em quatro anos e se caracteri­zam por momentos de troca de experiência e de celebração. É um tempo de viver junto a espi­ritualidade que marca as CEBs, de perceber que não estamos sozinhos e que em cada canto do país e da América Latina pessoas se reúnem em torno da Palavra de Deus, que ilumina a realidade na luta contra as injustiças, num novo jeito de viver o cotidiano, de entender o outro. O grande legado dos encontros interecle­siais é justamente este: perceber que há grupos nos lugares mais remotos; entender um pouco da experiência daquele povo: como ele surgiu, como se organizam, como celebram e aprender como essa grande experiência é impor­tante para a Igreja como um todo.
 TF – As CEBs na Arquidiocese do Rio ganharão novo incentivo? Há perspectivas de nascimento de novos núcleos?
André Luiz – A criação de novas CEBs é uma preocupação nossa para 2014. Onde tiver uma semente ou possibilidade de se construir uma comunidade, que ela seja construída. Para iniciar uma CEB é preciso que existam pessoas dispostas a fazer a leitu­ra da Palavra de Deus em vistas da transformação da realidade na qual se vive: seus membros olham e procuram perceber de que forma a Palavra de Deus pode ajudar a transformar sua realidade social, transformar os sinais de morte em sinais de vida. É um ciclo onde a palavra ilumi­na a realidade e as realidades dão elementos para construir novas comunidades.
Padre Niraldo – Sua dinâmica dá ao leigo um protagonismo para que caminhe em comunidade. Por isso nós pensamos na comu­nidade a partir do grupo de pes­soas que compartilham a vida e vivem a Palavra de Deus, após sua reflexão. Isso é a semente da CEB, mesmo que não haja uma edifica­ção, uma capela, um espaço para se vivenciar os sacramentos.
 TF – Como as CEBs se relacio­nam com a comunidade paroquial e a Igreja local?
Padre Niraldo – Nós amadu­recemos. Vivemos uma nova realidade eclesial. Hoje há uma afinidade muito grande na rela­ção das CEBs com outros movi­mentos e com outras pastorais. A CEB é um lugar de inclusão. A espiritualidade cada um tem a sua, isso não importa, porque a Comunidade Eclesial de Base quer ser plural. O importante é o ideal que nos une: a implanta­ção do Reino de Deus, a partir da vivência do Evangelho. Setores que antes pareciam de certa forma antagônicos, hoje vemos que não são. Aprendemos a tra­balhar juntos, unidos em torno da palavra. Não precisamos empunhar bandeiras iguais, mas em todas as bandeiras deve estar a marca do seguimento do Cristo, que é a marca da justiça e a defesa do Evangelho. Por isso os encontros das CEBs também estão abertos às pessoas de to­dos os movimentos e pastorais. Quando se divide só se perde, temos que agregar. É preciso respeitar o outro. Isso nos enri­quece como comunidade.
 TF – Mas as pastorais e mo­vimentos sociais se identificam mais com o trabalho das CEBs, não é verdade?
André Luiz – As CEBs possuem uma caminhada de 40 a 50 anos. Nesse tempo construíram-se la­ços estreitos com as pastorais de Favela, de Juventude e da Crian­ça. Trabalhamos juntos forman­do a consciência política e crítica do povo de Deus. A Bíblia é nossa base para pensar qualquer coisa, para construir relações humanas. Os Círculos Bíblicos, por exem­plo, são sementes das CEBs.
Padre Niraldo – A Igreja é uma voz profética. Tem que estar junto com os pobres, em defesa dos pobres. Isso é o dia a dia das Comunidades Eclesiais de Base. Enquanto presença do Cristo na Terra, necessariamente tem que exercer a profecia, profecia essa que é um grande clamor quando não se encontra a aplicação da justiça na sociedade. Deus fala através da sua Igreja ao mundo, e o cristão é o portador desse anúncio. Indo a todos, mas de modo especial em defesa dos que mais sofrem. Por isso, acre­ditamos que os cristãos devem estar junto aos pobres. A Igreja deve ‘ir ao encontro’, dar o que comer e o que beber aos mais necessitados, e denunciar as causas da injustiça social.
ANDRÉIA GRIPP
andreiagripp@testemunhodefe.com.br

COLABORAÇÃO: JÉSSICA PINHEIRO
jessica@testemunhodefe.com.br

Foto: Carlos Moioli