terça-feira, 21 de maio de 2013

Ensino religioso: desafios e soluções


A formação contínua do professor de ensino religioso é apontada como fundamental para que o aluno continue a ser formado de forma integral

“A falta de formação do profes­sor de ensino religioso (ER) gera um caminho marcado por equí­vocos”, afirmou o bispo auxiliar do Rio Dom Nelson Francelino Ferreira. “É essencial para a força do professor de ensino religioso a sua formação pessoal e continuada, para que ele saiba sistematizar bem aquilo que está sendo ensinado e possa ajudar os alunos a raciocinar sobre a fé que professam”, observou.
Dom Nelson, que é o bispo referencial para o ensino religioso na arquidiocese, ressaltou que o ER não é catequese ou evangeli­zação, mas é uma dimensão do conhecimento que não pode ser excluída, porque é um elemen­to fundamental da pessoa, em sua história e origem familiar e cultural. O bispo reforçou que é preciso dar muita atenção ao professor de ensino religioso.
“É fundamental que esse professor acredite e conheça bem aquilo que ensina aos alunos, e seja um profissional de profunda reflexão perma­nente. Essa formação contínua acontece a partir das dificuldades do aluno e das novas expectati­vas que aparecem no cenário de produção do seu credo”, afirmou Dom Nelson.
Para receber essa formação direcionada e atualizada, todos os professores de ensino religio­so católico da Arquidiocese do Rio devem participar dos en­contros quinzenais promovidos pelo Departamento Arquidioce­sano de ER.
“Nesses eventos são transmiti­das razões e aprofundamentos so­bre o conteúdo pedagógico do ER. Esse estudo é importante porque trabalhamos em escolas e lidamos com outros professores. É preciso saber dialogar de igual para igual, para não entrar na perspectiva do sentimentalismo, do devocional e, consequentemente, do proselitis­mo”, alertou Dom Nelson.

PEDAGOGIA INTEGRAL
Dom Nelson explicou que o que muitas vezes está por trás da geração de polêmica sobre o ER é o não entendimento de que o ser humano necessita de uma for­mação integral, que não exclua a sua dimensão de transcendência, religiosidade e fé.
“Que tipo de pessoa queremos construir? Um homem racional formado por uma escola mera­mente técnica, que produz apenas o profissional, ou uma educação integral que ajude o crescimento do homem em todas as suas áre­as e dimensões: lúdica, racional, sentimental e também na mesma proporção, a religiosa? Nós não somos máquinas para trabalhar apenas para provar e dar aquilo que se pede”, alertou.
Dom Nelson lamentou que, hoje, muitas escolas obedeçam a ditadura do mercado. “Quando o objetivo é fazer o aluno passar no vestibular percebemos um ser humano que, por um lado é um gênio, mas por outro lado é tão infantil ou tão marcado por contradições. Uma pessoa que não desenvolve todas as suas po­tencialidades de modo conjunto vai ser um ser humano que, mais tarde, vai conviver com a triste situação de frustração ou de crise existencial. A escola deve estar a serviço de uma formação integral, na qual todas as áreas do ser hu­mano encontrem um lugar para se desenvolver e fazer o homem crescer”.

ENSINO OPCIONAL
O ensino religioso plural con­fessional garantido por leis, no estado e no município do Rio de Janeiro, é direcionado para os alunos que estudam em turno integral e que optam por essa disciplina. Segundo Dom Nelson, para os estudantes que não dese­jarem esse ensino, a escola deve oferecer uma alternativa como o ensino de valores ou algum tipo de atividade alternativa, como um estudo dirigido na biblioteca, para os alunos fazerem o dever de casa, por exemplo.
“Em nossas escolas públicas, respeitando a porcentagem dos últimos censos, temos o ensino religioso nas religiões: católi­ca, evangélica e de matrizes africanas, e isto tem que ser respeitado. Para aqueles que não quiserem aula de ensino religioso é preciso plane­jar um meio de trabalhar valores, conceitos e ideias que possam fazer crescer a cultura do diálogo e do res­peito”, disse.
Dom Nelson destacou que todas as dificuldades de estruturação para implanta­ção do ER, como a organi­zação dos profissionais e a necessidade de salas extras, precisam ser resolvidas com boa vontade, para que os alunos não sejam prejudi­cados.
O bispo esclareceu que Estado laico é aquele que não prioriza nenhuma reli­gião específica ou a ausência de opção religiosa, pois ser laico não significa ser ateu.
“Um Estado só pode ser laico quando é democrático, quando dialoga, e, sobretu­do, não despreza o diálogo com as religiões. O ER está na área do conhecimento, e em função disso não é lugar para proselitismo. O lugar de trans­mitir a fé é a Igreja ou instituição religiosa e a família, locais onde acontece a iniciação na vida reli­giosa”, disse.
Dom Nelson destacou que a escola exerce um papel de su­plência no que se refere a valores e conceitos fundamentais, que a escola deve respeitar a fé ou a falta de religião de cada alu­no e estabelecer um profundo relacionamento e diálogo com a família.

CLÁUDIA BRITO DE ALBUQUERQUE E SÁ