segunda-feira, 8 de abril de 2013

Pastores no meio do seu rebanho


O Papa Francisco celebrou a Missa Crismal com os sacerdotes de Roma, na manhã da Quinta-Feira Santa, 28 de março, na Basílica de São Pedro. Em sua homilia, falou da simbologia dos ungidos, seja na forma, seja no conteúdo. A beleza de tudo o que é litúrgico, explicou, não se reduz ao adorno e bom gosto dos paramentos, mas é presença da glória de Deus que resplandece no seu povo vivo e consolado.

O bom sacerdote reco­nhece-se pelo modo como é ungido o seu povo; temos aqui uma prova clara. Nota-se quan­do o nosso povo é ungido com óleo da alegria; por exemplo, quando sai da missa com o ros­to de quem recebeu uma boa notícia. O nosso povo gosta do Evangelho quando é pregado com unção, quando o Evangelho que pregamos chega ao seu dia a dia, quando escorre como o óleo de Aarão até as bordas da realidade, quando ilumina as situações extremas, ‘as perife­rias’ onde o povo fiel está mais exposto à invasão daqueles que querem saquear a sua fé. As pessoas agradecem-nos porque sentem que rezamos a partir das realidades da sua vida de todos os dias, as suas penas e alegrias, as suas angústias e esperanças. E quando sentem que, através de nós, lhes chega o perfume do Ungido, de Cristo, animam-se a confiar-nos tudo o que elas querem que chegue ao Senhor: ‘Reze por mim, padre, porque tenho este problema’, ‘abençoe-me, padre’, ‘reze para mim’. Estas confidências são o sinal de que a unção chegou à orla do manto, porque é trans­formada em súplica – súplica do povo de Deus. Quando estamos nesta relação com Deus e com o seu povo e a graça passa através de nós, então somos sacerdotes, mediadores entre Deus e os ho­mens. O que pretendo sublinhar é que devemos reavivar sempre a graça, para intuirmos, em cada pedido – por vezes inoportuno, puramente material ou mesmo banal (mas só aparentemente!) –, o desejo que tem o nosso povo de ser ungido com o óleo per­fumado, porque sabe que nós o possuímos. Intuir e sentir, como o Senhor sentiu a angústia permeada de esperança da he­morroíssa quando ela Lhe tocou a fímbria do manto.
O sacerdote, que sai pouco de si mesmo, que unge pouco – não digo ‘nada’, porque, graças a Deus, o povo nos rouba a unção –, perde o melhor do nosso povo, aquilo que é capaz de ativar a parte mais profunda do seu coração presbi­teral. Quem não sai de si mesmo, em vez de ser mediador, torna-se pouco a pouco um intermediário, um gestor. A diferença é bem conhecida de todos: o intermedi­ário e o gestor ‘já receberam a sua recompensa’. É que, não colocando em jogo a pele e o próprio coração, não recebem aquele agradecimen­to carinhoso que nasce do coração; e daqui deriva precisamente a in­satisfação de alguns, que acabam por viver tristes, padres tristes, e transformados numa espécie de colecionadores de antiguidades ou então de novidades, em vez de serem pastores com o ‘cheiro das ovelhas’ – isto vo-lo peço: sede pastores com o ‘cheiro das ove­lhas’, que se sinta este –, serem pastores no meio do seu reba­nho, e pescadores de homens. É verdade que a chamada crise de identidade sacerdotal nos ameaça a todos e vem juntar­-se a uma crise de civilização, mas, se soubermos quebrar a sua onda, poderemos fazer-nos ao largo no nome do Senhor e lançar as redes. É um bem que a própria realidade nos faça ir para onde, aquilo que somos por graça, apareça claramente como pura graça, ou seja, para este mar que é o mundo atual onde vale só a unção – não a função – e se revelam fecundas unicamente as redes lançadas no nome d’Aquele em quem pu­semos a nossa confiança: Jesus.
Amados fiéis, permanecei unidos aos vossos sacerdotes com o afeto e a oração, para que sejam sempre pastores segundo o coração de Deus.
Amados sacerdotes, Deus Pai renove em nós o Espírito de Santidade com que fomos ungidos, o renove no nosso co­ração de tal modo que a unção chegue a todos, mesmo nas ‘periferias’ onde o nosso povo fiel mais a aguarda e aprecia. Que o nosso povo sinta que so­mos discípulos do Senhor, sinta que estamos revestidos com os seus nomes e não procuramos outra identidade; e que ele possa receber, através das nos­sas palavras e obras, este óleo da alegria que nos veio trazer Jesus, o Ungido. Amém.”

PAPA FRANCISCO
FOTO: RÁDIO VATICANO