sábado, 9 de março de 2013

Razão integral e ortodoxia positiva


O primeiro grande legado do pontificado de Bento XVI é, paradoxalmente, a sua renúncia. É preciso coragem para quebrar uma tradição de 600 anos. Na vasta cobertura jornalística das últimas semanas, ficamos sabendo que outros Papas tam­bém pensaram nessa alternati­va, como Paulo VI, desgostoso com as dissensões que se segui­ram ao Concilio Vaticano II. Mas da intenção ao ato, pode haver uma distância enorme.
Não é só quebrar a tradição. É preciso estar preparado para alegações de que a renúncia “dessacraliza” a função papal, ou de que cria o risco inerente à existência de dois Papas.
Bento XVI deve ter pesado tudo isso longamente. Seu ges­to me parece ao mesmo tempo moderno, humilde e corajoso. Se a principal função do Papa é ser um ponto de referência doutrinária, o homem que faz a ponte (pontifex) entre o céu e a Terra, também existe uma função, digamos, administrativa que precisa estar à altura das complexidades de uma vasta organização. Simplesmente, transferir esse lado para o secre­tário de Estado não resolveria. Nesse caso, sim, se poderia falar de dois Papas.
Bento XVI se retira num mo­mento em que as forças o aban­donam. Esta é outra lição que ele deixa: a do desprendimento, da superação do apetite de poder. Em que outras ocasiões se tem visto este exemplo? Em quantos casos os políticos, por exemplo (veja-se a Itália), agarram-se ao poder com uma obstinação desesperada?
Com todas as dificuldades inerentes ao cargo, ele consegue deixar um corpo de doutrina que faz dele um dos maiores teólogos da nossa época. Os livros que escreveu formam uma pequena biblioteca, cul­minando com os três volumes do “Jesus de Nazaré”. Longe de qualquer fundamentalismo, neles se faz o elogio da razão humana, dessa luz que vem de Deus, e que é capaz de dialogar com todas as épocas, de ilumi­nar os nossos caminhos. Bento XVI exerceu esse diálogo com figuras como o filósofo Jürgen Habermas. Mas ele fala sempre da “razão integral”, a razão que não ficou presa aos critérios do racionalismo.
A partir de Descartes, e por 300 anos, o racionalismo es­terilizou as fontes da cultura ocidental; criou uma oposição entre fé e razão que não deveria existir (como não existe em São Tomás, ou em Santo Agostinho). Qual é o pecado do raciona­lismo? Não o de usar muito a razão, mas o de transformar a razão em único instrumento para o conhecimento. Assim se deixam de lado os tesouros que vêm do uso da intuição, ou de uma espécie de instinto espiri­tual que pode existir nas pessoas mais simples, e cuja origem é explicada no livro do Gênesis: o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus; algo da luz divina repousa no coração do homem, e pode levá-lo à re­alização espiritual, se ela não for bloqueada pelos apetites que, descontrolados, fazem de nós criaturas ambiciosas, violentas, presas de uma sensualidade desenfreada (a que se refere São Paulo em suas epístolas).
Ao lado dessa “razão in­tegral”, outro grande tema de Bento XVI é a “ortodoxia po­sitiva”. A mensagem cristã é um chamado à maior de todas as aventuras: a descoberta de nós mesmos. Não é uma rígida coleção de preceitos, e sim o corpo vivo de que se compõe o mistério da Igreja. Neste que é um mistério de comunhão, e de abertura para o outro, correm abundantes o sangue de Cristo e os dons do Espírito Santo. Para essas verdades aponta o Papa renunciante, em tudo o que ele escreveu e pregou. Foi, apesar de tudo, um grande Papa.

LUIZ PAULO HORTA
JORNALISTA E PRESIDENTE DO CENTRO DOM VITAL
FOTO: RÁDIO VATICANO