terça-feira, 5 de março de 2013

Legado teológico-pastoral de Bento XVI


O Concílio Vaticano II já tinha percebido a complexidade do mundo moderno. Vive-se, hoje, numa sociedade globali­zada e, ao mesmo tempo, frag­mentada, com diversidades de culturas, saberes e ciências em um nível de proximidade e interatividade nunca antes ex­perimentadas. Essa diversidade desafia a Igreja na sua missão.
Joseph Ratzinger, o Papa Ben­to XVI, é um grande teólogo que ainda muito jovem participou do Concilio Vaticano II, tornando­-se um perito do Concílio jun­tamente com outros grandes teólogos. Grande conhecedor de Santo Agostinho e São Boa Aventura desde o início, boa parte do labor teológico, numa de suas obras, encontra-se as­sim formulado: “qual é, afinal, o conteúdo e o sentido da fé cris­tã”? (J. Ratzinger, Introdução ao Cristianismo, 1). O seu desejo é “ajudar a compreender de modo novo a fé como possibilidade de um verdadeiro humanismo no mundo hodierno”.
Toda sua obra está também marcada pela preocupação em conduzir a razão da fé ao coração do debate filosófico-cultural contemporâneo, tentando mos­trar a razoabilidade que esta contém em relação a outras hipóteses de leitura da realidade e do ser humano.
Num mundo secularizado, pós-metafísico, edificado subs­tancialmente sobre a interpre­tação científico-matemática da realidade, aquilo que parece dotado de valor é unicamente o “fato”, alcançado pelos métodos das ciências naturais e que pode ser, consequentemente, consta­tável, dominável, transformado pela intervenção humana. A razão humana passa, assim, a estar submetida à razão técnica. Contudo, esta razão moderna “traz consigo (...) uma questão que transcende a ela juntamente com as suas possibilidades metó­dicas”. No pensamento ratzinge­riano, a razão é muito mais vasta do que ela mesma acredita ser.
O seu ministério de sucessor do apóstolo Pedro teve início dia 19 de abril de 2005. Foram quase oito anos à frente da Igreja. O seu magistério, sem dúvida, ficará marcado pelos seus en­sinamentos e pela forma como conduziu a Igreja e enfrentou as grandes questões que lhe foram colocadas.
Bento XVI continuou, na vida da Igreja, todo o dinamismo deixado por João Paulo II. Ele dirá na missa de conclusão do conclave que o elegeu: “Tenho à minha frente, em particular, o testemunho do Papa João Paulo II. Ele deixa uma Igreja mais corajosa, mais livre, mais jovem”. Os grandes encontros das famílias, as Jornadas Mundiais da Juventude, e tantas outras iniciativas, tiveram continuida­de no seu papado. Destaco dois legados seus:

1. A recepção e atuação do Con­cílio Vaticano II. Bento XVI apontou para a hermenêutica da renovação na continuidade do mesmo sujeito eclesial. Para ele, “o Concilio Vaticano II, se lido na hermenêutica justa, pode se tornar cada vez mais uma grande força para a sempre necessária renovação da Igreja”. Já na missa de conclusão do conclave que o elegeu, tinha dito: “Justamente o Papa João Paulo II indicou o Concílio como “bússola”, para orientação no vasto oceano do Terceiro Milênio. Também no seu testamento espiritual ele anotava: “estou convencido que ainda será concedido às novas gerações haurir das riquezas que este Concílio do século 20 nos concedeu.
Por conseguinte, também eu, ao preparar-me para o serviço que é próprio do sucessor de Pedro, desejo afirmar, com vigor, a vontade decidida de prosseguir no compromisso de atuação do Concílio Vaticano II, no segui­mento dos meus predecessores e em fiel continuidade com a bimilenária tradição da Igreja (...) Com o passar dos anos, os documentos conciliares não per­deram atualidade; ao contrário, os seus ensinamentos revelam­-se, particularmente, pertinentes em relação às novas situações da Igreja e da atual sociedade globalizada”.

2. As suas encíclicas, exortações apostólicas, discursos, homilias, etc. são de uma grandíssima riqueza. O Papa Bento XVI fala e escreve com uma grande pro­fundidade.
Na “Deus Caritas Est” (Deus é amor), ele aborda, com profun­didade, o relacionamento entre o amor eros e ágape, mostrando que o eros e ágape se comple­mentam: “Quanto mais os dois encontram a justa unidade, em­bora em distintas dimensões, na única realidade do amor, tanto mais se realiza a verdadeira na­tureza do amor em geral”.
Numa sociedade carente de esperança, o Papa aponta para o verdadeiro sentido da esperança em “Spes Salvi”. Em “Caritas in Veritate”, sobre o desenvol­vimento humano integral na caridade e na verdade, o Papa afirma que “a maior força a ser­viço do desenvolvimento é um humanismo cristão que reaviva a caridade e que se deixa guiar pela verdade, acolhendo uma e outra como dom permanente de Deus”. “O humanismo que exclui Deus é um humanismo desumano”.
Em “Sacramentum Caritatis”, exortação apostólica pós-sinodal sobre a Eucaristia, o Papa tra­ta a Eucaristia como mistério acreditado, mistério celebrado e mistério vivido. O Papa faz perceber esta ligação intrínse­ca entre a Eucaristia, vida da Igreja e a fé, pois a “fé da Igreja é essencialmente fé eucarística e alimenta-se, de modo particular, à mesa da Eucaristia”. Por isso, “o sacramento do altar está sempre no centro da vida eclesial”.
Na exortação apostólica Pós­-Sinodal “Verbum Domini”, sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, documento de uma riqueza sem igual, o Papa mostra que a palavra é o logos, que se fez criança para ser com­preendida por nós. Esta palavra tem um rosto que podemos ver: Jesus de Nazaré: “O homem é criado na palavra e vive nela; não se pode compreender a si mes­mo, se não se abre a este diálogo”.
A Igreja se define pelo aco­lhimento do Verbo de Deus que, se encarnando, armou a sua tenda entre nós. A riqueza do seu ensinamento iluminará a vida da Igreja por muitas déca­das. Ele apontou para a Europa a necessidade do diálogo entre fé e razão e o convite a alargar o conceito da razão, abrindo-se ao Evangelho, e apontou para o continente latino-americano na 5ª Conferência de Aparecida, uma Igreja discípula-missioná­ria, e nessa mesma linha, o tema da Jornada Mundial da Juventu­de: “Ide e fazei discípulos entre todas as nações” (Mt 28, 19). Para a África, propôs aprofundar a vocação cristã; convida-a a viver, em nome de Jesus, a re­conciliação entre as pessoas e as comunidades e a promover a paz e a justiça na verdade para todos. À Igreja Católica no Oriente Médio propôs a comunhão e o testemunho.
Demos graças a Deus pela riqueza deste pontificado, para a vida e a missão da Igreja e para o mundo, e rezemos para que o Senhor dê à sua Igreja um novo pastor segundo o seu coração.

DOM PAULO CEZAR COSTA
FOTO: SERVIÇO FOTOGRÁFICO DO VATICANO