quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Recolher ou acolher? Qual o seu papel diante das drogas?: segunda parte da entrevista com o padre Renato Chiera

TF – Durante essas visitas, quais os relatos que se escuta com mais frequência?
Padre Renato – São muitas histórias de abandono por parte dos pais, violência doméstica e sexual, falta de amor, de atenção, de emprego, falta de perspectiva futura de vida. Confesso que é difícil falar com estes meninos que parecem loucos atrás de pe­dras. Quando eu perguntava se alguém já tinha entrado lá para encontrá-los e simplesmente ouvir o sofrimento que os leva­ram a entrar nesta vida escrava, a resposta era: “não padre. Aqui só entra a polícia para dar tiros na gente. Não se vê médico, nem assistência de qualquer tipo. Muita gente, lá fora, quer mesmo que morramos”. Nunca na minha vida vi realidades tão horrorosas e desumanas, piores que os campos de concentração nazistas que já visitei.
TF – Tem-se realizado di­versas ações de recolhimento e internação compulsória nas cracolândias. Qual sua visão sobre essas ações?
Padre Renato – Iniciou-se este processo antidroga na pior das formas: expulsando com violência e tirando os usuários compulsivamente das ruas. Eles não são criminosos, mas doentes, excluídos em mil for­mas, rejeitados, não amados, fruto e retrato de uma socieda­de que gera, mas não cria, não educa e, sobretudo, não ama. Uma sociedade que os crimina­liza e quer eliminar para calar a boca de quem nos acusa e interpela. Eles expressam um sofrimento do qual não são os culpados; entram nas drogas para preencher carências, re­jeições, abandonos, perdas e para suportar dores infinitas. São violentos porque não são amados. A maior violência é não ser um filho amado. Ao grito por presença e por amor, que não queremos escutar, respondemos com violência, desprezo e punição, e queremos que eles ainda nos agradeçam, pois os salvamos do crack. São eles que devem nos dizer o que precisam para sair do crack. Sem esta percepção e consciência fundamental, não iremos para canto nenhum e não encontraremos soluções.
TF – Qual seria, então, a melhor saída para esta proble­mática?
Padre Renato – Acredito nas boas intenções, mas é estranho que um governo que deseja re­solver problemas tão complexos e difíceis não preparou nada ou quase nada, a não ser o apara­to militar para expulsão. Pela nossa experiência, precisa-se de espaços para acolhimento e recuperação da identidade e reestruturação da pessoa, in­fraestrutura sanitárias, centros de desintoxicação, comunida­des terapêuticas, pessoas com vocação e preparo profissional, capazes de amar e acolher e perspectivas concretas de futu­ro. É estranho que estas ações e decisões não tenham sido vistas e partilhadas com a sociedade e segmentos mais experientes neste campo. Nossos deputa­dos nunca se debruçaram para ajudar a encarar a problemática e encontrar soluções verda­deiras. Agora, todos estão de acordo com o recolhimento de qualquer jeito. Temos medo dos filhos que geramos e os demo­nizamos para nos sentirmos inocentes.
TF – Quais os fatores que contribuem para o aumento do consumo de crack no país?
Padre Renato – O crack não é só caso de polícia, mas é pro­blema de saúde, de políticas públicas que visem às famílias dessas pessoas; é problema de perdas de valores na socieda­de, nas famílias e nas escolas (“estado” laicista, não leigo, que quer banir a religião com seus valores); é problema de rejeição e falta de amor, de educação e de escola; é problema, no primeiro momento, de desintoxicação, de tratamento e recuperação em comunidades terapêuticas e, depois, de escolarização, de profissionalização, de inserção na sociedade e no mercado de trabalho. Precisa-se, nisso tudo, de pessoas “vocacionadas”, capazes de escutar, acolher e amar. Além disso, ao invés de insistir em políticas ineficazes, precisa-se investir em preven­ção, tratamento e reabilitação. A internação compulsória é condenada internacionalmente como ineficiente, estigmati­zadora e que viola os direitos humanos. É preciso ousadia e criatividade para explorar novas soluções. Ainda temos esperança.

ROCÉLIA SANTOS