quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O mundo está perplexo!



Quem imaginaria que um Papa, principal­mente como Bento XVI, fosse capaz de renunciar ao encargo que, para muitos, era considerado vitalí­cio? O mundo católico já estava acostumado com a ideia de que teria que esperar a morte de Ben­to XVI para que um novo pontí­fice fosse eleito. Afinal, não tem sido assim há séculos? A imagem que ficou do seu predecessor, o saudoso Papa João Paulo II, não foi a de quem aguentou a enfermidade e as dores até os extremos?
Todavia, Bento XVI não só foi capaz de renunciar, como surpreendeu o mundo com a sua decisão. A mais alta cúpula da Igreja parece que desconhe­cia o momento; não, talvez, a sua intenção. Isto as diferentes entrevistas e comentários, que ocorreram ao longo do dia, de­ram a entender e continuam a ser repetidas.
Em todas as reportagens e entrevistas, as especulações mais que perguntas se repetiam: Por que Bento XVI tomou essa deci­são? Como ficará a Igreja Cató­lica até a eleição do novo Papa? Quem poderá ser o sucessor de Bento XVI? Será um Papa latino­-americano? Será italiano? Será africano? Será asiático? Quem será? Questões importantes, mas periféricas!
Com o gesto da renúncia, que se poderia dizer mais inédito que surpreendente, o Papa Bento XVI dá um grande exemplo e um forte testemunho de que a Providência Divina é quem determina os rumos da Igreja Católica. A idade avançada, as forças diminuindo, as exigências e as pressões aumentando, cada vez mais, e as restrições médicas
 são alguns dos fatores anuncia­dos que levaram o Papa a tomar essa difícil decisão. É preciso ser honesto não só diante de Deus, mas também diante dos homens, principalmente dos irmãos na fé, para chegar ao ponto que Bento XVI chegou: reconheceu que não conseguiria mais liderar a Igreja Católica, como ela necessita ser liderada.
A decisão, porém, foi tomada e é irrevogável! Bento XVI ficará no comando da Igreja até às 20h do dia 28 de fevereiro de 2013. A partir desse momento, se re­tirará para Castel Gandolfo e lá se empenhará, no recolhimento e na oração, pelo bem da Igreja, até que o Colégio dos Cardeais se reúna e se prepare para um novo conclave, pelo qual será eleito, espera-se antes da Páscoa, o novo sucessor de Pedro, que assumirá a condução da grei católica de Jesus Cristo diante dos antigos e novos desafios.
O novo Papa, dizem os co­mentaristas, deverá ser capaz de continuar o diálogo ecumênico e inter-religioso, estar aberto às sérias questões humanas e ambientais, projetar muito mais a Igreja Católica no mundo midiático, reorientando as suas posições teológicas e morais com novos argumentos e critérios, sem renunciar às verdades da fé. Penso, porém, que deverá colocar em prática uma palavra profética que Jesus dirigiu ao apóstolo Pedro antes da sua negação: “Simão, Simão, eis que Satanás pediu com insistência para vos joeirar como trigo; eu, porém, roguei por ti, para que tua fé não venha menos e tu, uma vez con­vertido, confirma teus irmãos” (Lc 22,31-32).
Sim, o impacto foi muito forte! Talvez com o passar dos dias, tendo iniciado a “digestão”, poder-se-á, com mais tranquili­dade, começar a se perceber que os católicos e o mundo inteiro aprenderam mais uma lição com o sábio Papa Bento XVI: a renún­cia não é um ato de covardia, mas um ato de coragem, quando se é consciente da missão recebida e da incapacidade para realizá­-la. Ao lado disso, Bento XVI dá ao mundo um exemplo e um enorme testemunho no sentido político internacional: é preciso saber se desapegar do poder e dos cargos de liderança!
Enquanto que, nos últimos anos, se assiste, em várias partes do mundo, a luta, a revolta e as manifestações dos cidadãos pedindo ou exigindo, até com atos violentos, a renúncia de seus líderes totalitaristas, Bento XVI, humildemente, reafirma que o verdadeiro poder e autoridade de um líder, seja ele religioso ou não, reside no serviço ao próximo e na prática do bem, da justiça e da verdade.
Como avaliar esses quase oito anos de pontificado do Papa Bento XVI? Difícil de responder! Uma coisa, porém, é certa: há muito tempo que não se tem um Papa tão inteligente, tão sensível, tão lúcido e tão próximo aos reais problemas da Igreja e do mundo. Desde que assumiu a Cátedra de Pedro, Bento XVI tem procurado mostrar, para todos os cristãos e para os homens de boa vontade, que a experiência de Deus não se faz por uma fé sentimental, mas por uma certeza racional, por­que, sendo a fé um dom divino, serve para alimentar a esperança e fortalecer a caridade que une todos os seres humanos e os orienta para o mesmo fim: Deus!
Rezemos, com amor e con­fiança, pelo bem e pelas inten­ções do nosso Pontífice!

PADRE LEONARDO AGOSTINI 
DIRETOR DE GRADUAÇÃO DO DEPARTAMENTO DE TEOLOGIA DA PUC-RIO

FOTO: INTERMIRIFICA.NET