quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O desafio de reconstruir vidas



Nelly Camacho Barbosa é colombiana, mas há nove meses se viu obrigada a buscar refúgio no Brasil. Ameaçada pelo conflito armado que assola seu país, ela tomou a difícil decisão de deixar o marido e seus dois filhos para encontrar um território onde a família pudesse viver com mais segurança. Hoje, Nelly é uma das 2.741 pessoas abrigadas pelo Programa de Atendimento a Refugiados da Cáritas Arquidiocesana, que também conta com o orientação espiritual do cônego José Roberto da Silva, diretor-secretário da instituição no Rio.
“Por causa da violência, eu fui ‘desplazada’ (deslocada forçadamente) da minha casa e perdi todos os meus bens. Então, pedi proteção na cidade de Bogotá. Mas a ajuda não veio e a solução foi viajar para o exterior”, conta Nelly, aos 49 anos, que encontrou o apoio que precisava ao desembarcar no Rio: “Muitos refugiados se desesperam ao chegar, sem saber a quem recorrer. Mas a Cáritas está sempre de braços abertos para nos receber e dar os primeiros passos para regularizar a situação.”
O trabalho da Cáritas Arquidiocesana com refugiados começou em 1976, quando houve um grande fluxo de pessoas em busca de asilo político, provenientes de países da América do Sul sob regime ditatorial. Mais de três décadas depois, a atuação se tornou tão eficaz que fez com que os olhos do mundo se voltassem para o Brasil: no mês passado, a ONU, através do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), emitiu um comunicado oficial parabenizando o país pelo serviço de acolhimento e pela concessão de uma nova medida em favor dos refugiados.
O reconhecimento da ONU é motivo de comemoração para Heloisa Nunes, coordenadora do Programa de Atendimento a Refugiados da Cáritas do Rio. Às vésperas do Dia Internacional dos Direitos Humanos, celebrado em 10 de dezembro, ela apela para que a sociedade também abrace a causa.
“A integração local do refugiado é o nosso grande objetivo, e para isso é fundamental o apoio da sociedade civil para que essas pessoas consigam o primordial que é: trabalho, moradia, educação e saúde”, explicou Heloísa, que acrescentou: “Se conseguirmos que pelo menos uma parcela da sociedade brasileira entenda e respeite a cultura dos refugiados, e os aceite como pessoas que podem colaborar com o nosso país, já teremos conseguido um grande passo”.

Vida Nova


Com pouco dinheiro no bolso e sem saber falar português, Nelly Barbosa não imaginava que em poucos meses estaria estabilizada no Brasil. Hoje, a colombiana trabalha como recepcionista no Aeroporto Internacional e já ajuda no acolhimento de outros refugiados.
“Tenho emprego e estou muito estável emocionalmente. A Cáritas faz um trabalho maravilhoso. São pessoas com disponibilidade e muita sensibilidade. Além da ajuda econômica e da orientação jurídica, desde o primeiro momento recebi atendimento psicológico, o que foi muito importante”, diz Nelly, que agora batalha para trazer o restante da família: “Há dois meses chegou um dos meus filhos, e ainda neste mês vai chegar o irmão dele junto com meu marido”.
Apesar da saudade da terra natal, a colombiana não pensa em voltar tão cedo.
“É impossível deixar tudo e não olhar para trás. Tenho muita saudade do meu país, dos meus amigos e da vida que construí. Mas por agora não quero voltar”, afirmou. 
Além de colombianos, a Cáritas do Rio recebe refugiados de países como Angola, República Democrática do Congo, Libéria, Guiné Bissau, Senegal, Serra Leoa, Somália, Nigéria, Cuba, Peru, Iraque, Paquistão, Sérvia, entre outros.
“Nós acolhemos o refugiado que chega ao Rio, priorizando a orientação sobre seu processo de pedido de refúgio, seus direitos e deveres institucionais, como também orientamos sobre os diversos serviços de atendimento assistencial. A partir daí é encaminhado para fazer o protocolo junto à Polícia Federal como solicitante de refúgio”, explicou Heloísa Nunes, acrescentando que a ajuda chega de diversas formas: “Oferecemos em nossas dependência cursos de português e artesanato, além de assistência jurídica e social. Para os demais serviços, contamos com instituições parceiras e com a rede pública de assistência”. 
Na opinião de Heloísa, estimular a divulgação sobre o tema do refúgio deve ser uma prioridade nos meios de comunicação brasileiros.
“Acreditamos que a divulgação do tema sobre refúgio é um grande trunfo para otimizar o trabalho, e a aceitação da sociedade sobre esse contingente de pessoas que escolheram o Brasil para se refugiarem e conseguirem um final feliz para suas histórias”, disse.

TEXTO: PEDRO ZUAZO
FOTO: CARLOS MOIOLI