sábado, 24 de novembro de 2012

“Oferecer um sacrifício de expiação pelos mortos”

Em conformidade com a fé da Igreja, acreditamos que, após a morte, a alma passa por um juízo particular. Neste juízo é decidida, com base no amor, uma destinação para a alma e, consequentemente, para a ressurreição final: ou a felicidade eterna no Céu, ou a perdição eterna no inferno, ou um processo de purificação no purgatório.



O que é o Purgatório?
No nº 1031 do Catecismo da Igreja Católica (CIC), podemos encontrar o que a Igreja entende por Purgatório: “esta purificação final dos eleitos, que é completamente distinta do castigo dos condenados”. Aquelas pessoas que viveram uma vida de amizade com Deus, mas não estavam completamente purificadas no momento de sua morte, garantem sua salvação eterna passando por um momento de preparação, de purificação, de obtenção da santidade necessária para gozar do Céu. O purgatório aparece como uma preparação após a morte para a entrada na comunhão plena com Deus. Quem se encontra em tal purificação tem a certeza da entrada na bem-aventurança eterna. Normalmente, até porque para nossa compreensão é mais fácil, imaginamos ou nos referimos ao purgatório como um lugar. Contudo, o purgatório é um estado da alma. Ele é o estado de purificação final e de preparação da alma para a visão de Deus.

De que precisamos nos purificar?
O termo purgatório vem da palavra latina purgatio, purgationis que significa purgação, justificação, expiação, limpeza, A concepção do purgatório implica em que a alma precisa ser purgada, justificada, expiada, limpa. As consequências dos pecados cometidos nesta vida podem nos acompanhar na outra. Cada pecado gera uma necessidade de restabelecimento da justiça ferida. Assim, por exemplo, se alguém rouba algo, deve não  só pedir perdão, mas restituir aquilo que foi roubado. A própria confissão sacramental implica em atos de reparação pelas faltas cometidas. Se morremos necessitando reparar faltas e erros cometidos, precisamos nos purificar antes de entrarmos em comunhão plena e eterna com Deus justo e bom. As más inclinações que nosso coração possui precisam ser reconduzidas a Deus ainda nesta vida. Se morremos necessitando reconduzir as inclinações do nosso coração para Deus, precisamos nos purificar. Esta purificação é o purgatório.

A Bíblia fala algo sobre o Purgatório?
Alguns cristãos não acreditam no purgatório e afirmam que a Bíblia não nos fala nada sobre ele. Todavia, vejamos alguns exemplos na Sagrada Escritura da purificação póstuma. Em 2Mc 12,38-45, vemos Judas Macabeus mandando oferecer um sacrifício expiatório pelos mortos na batalha, pois estes precisavam se purificar da idolatria cometida. Em 1Cor 3,10-16, Paulo mostra que no dia do juízo os pregadores tíbios se salvarão, mas só depois de serem purificados.

A tradição e o magistério falam sobre o Purgatório?
Tertuliano afirma que aqueles que não morrem mártires devem purificar suas culpas pós-batismais. Clemente e Alexandria e Orígenes creem que as manchas que os justos tiverem após a morte deverão ser purificadas num rio de fogo. Cipriano, Ambrósio, Gregório de Nissa e Cesário de Arles acreditam em penas póstumas purificadoras. Agostinho, baseado na prática da liturgia cristã de rezar pelos mortos, afirma a doutrina da purificação póstuma. No tocante à liturgia eucarística pelos mortos, são testemunhas Tertuliano, Cipriano e Cirilo de Jerusalém.
Com tudo isto, a doutrina sobre o purgatório vai ser solenemente declarada nos concílios de Florença (1439-1445) e de Trento (1547). Como sabemos, uma doutrina passa a ter necessidade de uma formulação dogmática clara quando alguma parte dos fiéis começa a se desviar da reta interpretação dela. No caso do purgatório, fez-se necessário por conta das questões com as Igrejas Orientais e a Reforma Protestante.

Podemos rezar pelas almas que estão se purificando?
A Igreja recomenda uma série de ações que podem ser oferecidas para ajudar a expiação dos pecados de nossos irmãos falecidos. Sem dúvida, a Santa Missa tem um lugar de destaque. Em todas as celebrações da missa, existe um momento na prece eucarística, no qual a Igreja pede por seus filhos e filhas, que se purificam, a entrada na comunhão plena com Deus. Além da Eucaristia, a Igreja recomenda as esmolas, as indulgências e obras de penitência em favor dos fiéis defuntos.
Os fiéis defuntos que se purificam fazem parte da Igreja padecente. Nós, Igreja militante, e os santos, Igreja triunfante, nos unimos em preces por estes irmãos para que possam, purificados, viver na contemplação de nosso Deus. Nossa união em Cristo nos permite partilhar da comunhão de bens do Céu. Nossa morte não rompe nossa comunhão com a Igreja.

Para aprofundar:
Para aprofundar o tema, indicamos a leitura do CIC, nos números 1030-1031; do Compêndio do Catecismo, pergunta 210 e 211; do YouCat, perguntas 159 e 160; da Lumen Gentium, dos parágrafos 48 ao 51 e 68 ao 69.

TEXTO: PE. VITOR GINO FINELON
VICE-DIRETOR DAS ESCOLAS DE FÉ E CATEQUESE/MATER ECCLESIAE E LUZ E VIDA
FOTO: CARLOS MOIOLI